O pinguim

O pinguim de repente virou-se para o outro pinguim e disse: “cansei de ser pinguim”. O outro pinguim nem fez cara de espanto, pois não era a primeira vez que ouvia isso.
“E o que você quer ser dessa vez?”
“Quero ser outra ave”
“Que ave?”
“Um pardal”
“?!”
Isso sim causou espanto. De onde ele tirou isso? Nunca vira um pardal, aliás… O que é um pardal?
“Os pardais são bonitos. Pequeninos, graciosos, voam… eu quero voar…”
“?!”
“Você não gostaria de ser um pardal também?”
“!!”
“Ah, eu quero. E vou ser um pardal.”
E saiu andando.
“Mas como você vai fazer pra virar um pardal? Onde você viu um pardal?”
“Vi num livro. Gostei, achei bonito. Deve ter uma vida mais empolgante que a vida de um pinguim. Ele vê coisas coloridas. Aqui só se vê branco e cinza.”
“Mas então, como você vai fazer pra virar um pardal?”
Ele parou. Pensou. Coçou a cabeça.
“Vou treinar voo!”
“!!”
Ficou louco. Dessa vez ficou louco mesmo. Antes ele já tinha decidido virar foca, morsa, baleia. A fase da baleia foi terrível, mas não uma loucura como essa. Pardal!
E lá foi o pinguim correndo para um barranco. O outro pinguim atrás, curioso e preocupado.
O pinguim subiu no barranco. O outro ficou embaixo para observar melhor.
“Mas pinguim não voa…”
“Pinguim não voa, mas pardal sim!”
Tomou distância, deu impulso e se jogou de asas abertas.
“Lá vou eu!”
O pinguim embaixo só olhando.
“Ih, não é q ele… vai cair! Vai cair! Ta caindo! Ah!”
Caiu.
“Não importa! Foi só a primeira tentativa! Vou tentar novamente! A pratica leva a perfeição!”
E subiu todo empolgado.
A segunda tentativa foi tão bem sucedida quanto a primeira.
E a terceira.
A quarta. A décima. A vigésima.
O pinguim embaixo já estava entediado.
Frustrado e machucado, decidiu seguir por outra via.
“Posso começar pelo mais simples, me alimentando como um pardal!”
“E o quê um pardal come?”
“Minhocas”
“E onde você vai achar minhocas?”
“… deve haver por aí!”
“Ao menos você sabe o que é uma minhoca?”
“…”
“E então?”
Deve haver alguma coisa aqui para um pardal comer!”
“Só por curiosidade… o quê mais você sabe sobre um pardal?”
“Eles voam!”
“Sim, isso você disse. O que mais?”
“Eles gostam de lugares quentes!”
“…”
“O que foi?”
“Preciso dizer?”
“…”
“Como você quer ser uma ave que gosta de lugares quentes se você nasceu e cresceu em um lugar frio?”
“Eu posso me adaptar…”
“Ai meu deus! Você não tem conserto mesmo! Então vá, vá ser um pardal! Seu doido!”
Disse e foi embora resmungando
“Pode ir! Nunca me incentiva mesmo, só me chama de louco! Quando eu conseguir quero ver só o que você vai dizer!’

A companheira

O perfume era o mesmo, inconfundível. O sabor da boca, outro. Era a segunda depois daquela que seria a eterna.

Sentei no bar, só olhei pro velho companheiro e ele já sabia o que devia trazer: um cinzeiro e minha cervejinha. Estava esperando pela minha novíssima companheira, companheira que deveria ser de uma noite só.

Uma vagabunda que mal sabia ler. Mas isso não importa. Beijava bem e era carinhosa, me fazia sentir bem simplesmente estando ali e me olhando com aqueles olhinhos miúdos, muito pretos e , apesar de tudo, de toda a sua vivência, inocentes.Isso me bastava.

Ela me ouviu, me acalentou, me fez sentir o mais potente dos homens. Depois deitei em seu colo e chorei como uma criança. “A vida é assim mesmo… ligue não. Chora q lava a alma.” Era a única pessoa no mundo que eu permitia que me visse dese jeito: fragilizado. Bobo. E a única que me dizia bordões estúpidos sobre fim de romance que eu não mandava ir à merda.

E então ela passou a fazer parte das minhas noites de carência. E notei como começou a se acostumar e gostar disso. Em uma de minhas visitas, cheguei a encontrar a mesa posta. “Come um pouquinho, nego. Magina um homem desse tamanho sem se alimentar… você anda muito magro… Anda, senta aqui.” Agora era um pouco minha mãe, além de psicóloga e amante.

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Infelizmente perdi a data de quando escrevi esse conto. Faz anos… acho que uns dez ou perto disso. Encontrei perdido num fotolog (aff… sim, eu tive um bobolog), mas estava num dos muitos blogs que tive. Enfim, é o meu preferido até hoje.

Poesia no fim de tarde

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Que o tempo passe, vendo-me ficar
no lugar em que estou, sentindo a vida
nascer em mim, sempre desconhecida
de mim, que a procurei sem a encontrar.

Passem rios, estrelas, que o passar
é ficar sempre, mesmo se é esquecida
a dor de ao vento vê-los na descida
para a morte sem fim que os quer tragar.

Que eu mesmo, sendo humano, também passe
mas que não morra nunca este momento
em que eu me fiz de amor e de ventura.

Fez-me a vida talvez para que amasse
e eu a fiz, entre o sonho e o pensamento,
trazendo a aurora para a noite escura.

Ledo Ivo – Soneto dos vinte anos

* Foto de meu arquivo pessoal

Nossas histórias

Uma vez escrevemos juntos um conto a duas mãos. Uma das personagens era uma mulher que não cria em si, que morava num pedaço do mundo onde as flores não se animavam a desabrochar nem mesmo na primavera. Através de um pássaro mensageiro, ela recebeu uma carta. “Nem tudo é o que parece”, lá estava escrito. Quem a assinou foi um homem que também andava descrente. Não de si, mas dos outros. Ele morava próximo a uma lagoa e todos os dias andava por suas margens em busca de uma planta rara.

Ela achou a mensagem clichê demais, contudo guardou a tal carta. Depois pensou bem e resolveu responder ao desconhecido. Essa carta fora enviada à moça por mero acaso, pois foi solicitado ao pássaro que a entregasse a uma pessoa cuja casa era parecida com a dela. Esta que não era a real destinatária chamava-se Diana, tinha cabelos vermelho-fogo, a tez muito alva e corpo rechonchudo como um bolinho de chuva.

O homem, de sobrenome Rocha, estranhou a resposta, pois veio um tanto diferente do que esperava: falava a um certo homem branco e fazia diversas referências ao seu chapéu, porém ele era negro e sempre mantinha a cabeça descoberta. Percebeu então o engano, porém respondeu à estranha de forma amistosa, informando-lhe o equívoco. E então começou uma longa troca de cartas por anos a fio, que se converteu no melhor equívoco de todos os tempos para ambos.

O amor que nasceu daí fez render essa história. De onde não imaginávamos mais que uns poucos parágrafos simples,  fluíram vários outros. E de um pequeno conto, para o qual não esperávamos grande coisa, a trama cresceu por si como se criasse vida própria: virou uma boa história, gerou alguns capítulos que, vejam só, até ilustrados foram.

Em dado momento, só para mudar um pouco e exercitar a criatividade, resolvemos escrever um poema. Discussões sobre estilo, métrica e outras formalidades atrasaram o início do intento. Quando percebemos o fato (óbvio) de que não se faz poesia com muita regra e pouco sentimento, finalmente brotou de nós o poema mais lindo que poderíamos pensar em escrever. Sincero, intenso e provocador, é um escrito que, ao lermos, sabemos estar nele contido aquilo que achamos ser o melhor de nós. Nos traz também o desafio de reconhecer espelhado ali nossos próprios limites.

Virão sempre questões que a parceria não resolverá por si só, escrever a dois, viver a dois… difícil. Até agora, dificuldades e prazer, como acontece normalmente na vida. Mas porque esperar o pior?

Bilhete

O bilhete era simples, tinha apenas duas palavras: “Combina com você”. Assim, sem ponto, sem nada. Escrito numa folha de caderno com caneta azul.

Estava dentro de um livro, que provavelmente foi adquirido num sebo. Era o “Dom Casmurro”. Pensou: poderia estar escrito assim no bilhete – “Em homenagem aos seus olhos de ressaca, pequena cigana”. Mas não estava.

Quando abriu a porta de casa pela manhã, lá estava o tal livro. Capa dura marrom, levemente gasta, com uma dedicatória simples de um certo Heitor para uma mulher chamada Gláucia. Ela sorriu ao imaginar quem o poderia ter deixado ali. “Perfeito…”

No dia seguinte, encontrou ao pé da porta uma margarida. Novamente, um bilhete. “Delicada, expressiva.” Seria assim todo dia?

Numa outra manhã, bastante chuvosa, abriu a porta e viu com espanto um guarda-chuva. “Não vá se molhar…”

Mais uma manhã, mais um presente. “Depois da tempestade…” Agora era um pequeno vaso de cerâmica com uma plantinha miúda.

E assim, a cada dia o admirador secreto lhe deixava um mimo. Até que um dia viu apenas um bilhete. “Estou de partida. Adeus.”

“Adeus?! Como assim, adeus?”

Ficou desorientada. Um mês recebendo presentes de sabe-se lá quem, um mês imaginando como se daria o momento da revelação do admirador secreto… e de repente o sujeito termina o não-relacionamento com uma porcaria de bilhete.

Sem sono e sem assunto

A madrugada geralmente me traz idéias. Ou tira do baú algumas angústias e ansiedades. Hoje, no entanto, o que me faz perder o sono é… nada. Mentira. O fato de não ter um tema específico para escrever não significa que não tenha um motivo “melhor” para a minha insônia. Na verdade é só um, confesso: a boa e velha ansiedade. Que por sua vez tem um componente interessante que a alimenta, que é a falta (há meses) de uma boa noite de sono. Soma-se a isso o estresse causado pelo que seria uma fonte de prazer que se converteu em uma série de pequenas obrigações chatíssimas, as quais tenho empurrado com a barriga com maestria (e com vergonha também, porque sei o quão ridículo é fazer isso tendo plena consciência de que é pura auto sabotagem).
Escrevo com certa culpa, pois deveria estar dormindo. Neste caso, mais um ponto para a auto sabotagem, pois amanhã tenho tarefas importantes que exigem que minha mente esteja minimamente descansada. Bocejo e penso: só mais uma frase… E sigo aqui sem assunto. E mais um bocejo. Mais uma frase que nem precisaria ser escrita, a minha vida continua muito bem sem ela.
Bate então a saudade dos contos que escrevia madrugada adentro, vontade de que a inspiração brote e me faça digitar uma história divertida. Mas surge mesmo uma boa dor de cabeça, pra me lembrar de que preciso dormir. Agora. Com urgência.

Volta e Volta

Aquele momento em que a pessoa parece que não tem nada de interessante pra fazer na vida e aí resolve reativar um blog perdido no tempo.

Na verdade, tem uma série de coisas interessantes rolando no momento. Mas sei lá. Escrever sempre me fez sentir muito bem. E é pra onde corro quando preciso lembrar de algumas coisas sobre mim.

De-volta-pra-casa

Daqui

P.S.: Digitei “volta” no Google, a fim de procurar uma imagem pra colocar aqui. Apareceram várias de Alexandre Volta, o inventor da pilha elétrica. Interessante…